23 Agosto 2011

Sobre meninos e lobos

Não raro os clubes são vistos como vilões de sangue frio cuja única aspiração é sugar todo o talento de jovens e depois revendê-los como mercadoria valorizada. É fato que muitas vezes as agremiações agem com vistas ao seus interesses e esquecem dos atletas.

Mas há também o outro lado da moeda e não se pode deixar de expô-lo. Cada vez mais precoces, aspirantes a jogadores agem como se fossem nomes consagrados e tentam aproveitar brechas jurídicas para pressionar os clubes em níveis que se aproximam da chantagem. Ou o jovem é "valorizado" (termo da vez da boleirada que quer pedir um aumento), ou "nos vemos no tribunal".

O caso mais recente é do são-paulino Henrique. Destaque do mundial sub-20, o atacante desembarcou no Brasil falando grosso com o clube e dizendo que não vai permanecer, isso com contrato em vigência (e legalmente emancipado). Tenta repetir o que Oscar, hoje no Internacional, fez.

Pode-se falar o que quiser do São Paulo, mas a estrutura oferecida aos jogadores da base é digno de potências da Europa. Gasta-se muito dinheiro investindo no jogador, dando moradia, oferecendo aulas de inglês, etc. No caso de Oscar, o clube chegou a "esconder" o meia na Espanha para evitar o assédio. Tudo com o aval do atleta e da família. E o que ganhou com isso? Um processo na Justiça.

E se Henrique tivesse sido um fiasco no mundial, estaria ele com o mesmo discurso? Do alto dos seus menos de 20 anos, o "veterano" reclama da falta de oportunidades. Só que quando ele as teve (e de fato isso aconteceu), ele não aproveitou. Lucas, também da base são-paulina, agarrou a chance que teve e se tornou dono do time. E jamais quis botar banca em cima da diretoria. Casemiro segue o mesmo caminho. Delumbrado com a possibilidade de se transferir para a Europa, força a barra com o clube. Aí é só dizer que está "sem clima" e pegar o avião.

O Santos também viveu seu drama com Jean Chera, que nunca vestiu a camisa de profissional e já zarpou da Vila Belmiro com o manjado discurso da "desvalorização". Tudo isso do alto de seus...16 anos. Sim, 16!

Em qualquer relação trabalhista é justo o anseio por novas gratificações e promoções, mas para alcançá-las é necessário o mínimo de desenvolvimento. Henrique, para ficar apenas no caso mais recente, pouquíssimo fez no São Paulo para almejar um contrato melhor. Com a bola cheia depois da participação na seleção, põe a faca no pescoço do clube e exige a tal "valorização" (isso ganhando um salário muito maior do que a grande maioria dos chefes de família). E quem diria, os clubes ficam reféns desse tipo de gente e todos os abutres que esperam tirar algum proveito dessa confusão.

Talvez seja hora de repensar algumas coisas. Jogar a culpa apenas nos empresários é muito fácil, embora é evidente que muitos sejam ases na arte de convencer seus talentos a se virarem contra quem os forjou por anos a fio. Mas também é hora de cobrar maturidade dessa garotada que se acha tão esperta na hora de peitar todo mundo e ter ataques de criança mimada.

Nesse caso, Henrique, que se gaba de ter sido artilheiro de uma competição de adolescentes, fez um golaço contra. E de canela.

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